domingo, 7 de agosto de 2016

APESAR DO TEMPO

Parece que foi ontem. E já passaram 52. Todos sabem que não sou pessoa de festas de aniversário. Este ano não foi diferente. Esta coisa que eu tenho com o TEMPO  e o facto de chorar sempre que cantam os parabéns, fazem-me ser avessa a festas de aniversário e levam-me a adiar sempre a minha a festa de anos para o ano seguinte. Já vou nos 52 e ainda não fiz a festa dos 50. Comovo-me sempre com os parabéns! Os mais chegados sabem que tenho um truque para não chorar : Usar a letra do “parabéns a você” com a melodia da internacional socialista. Não sei porquê mas funciona sempre.

Hoje acordei a pensar no Mestre. Nele e na história da relação entre a biblioteca e a cidade, na relação que conseguiu construir com o poder eleito. Ele e o Carreira Marques mostraram de forma hábil , a partir de diferentes  áreas, como gerir a relação de poder capitalizando a imagem da cidade, a partir da Biblioteca. Lembrei-me de cada borrasca, cada embate , cada desafio. Estava a pensar e dei graças pela fabulosa experiência humana que foi acompanhá-lo nessa utopia.

Hoje acordei cedo para Andarilhar em emails , mapas, orçamentos, programações e dei por mim a pensar nos lugares por onde já andarilhámos em 23 Anos de Biblioteca e 14 anos de Andarilhas. Dei por mim a pensar nos milhares de crianças, jovens , adultos que pelo menos uma vez nas suas vidas, foram tocadas por projectos,actividades, por experiências de escuta , desenvolvidos pela biblioteca . Pensei nos milhares de livros emprestados, nos milhares de mãos que tocaram as páginas de milhares de livros , nos milhares de orelhas que escutaram  pensamentos , reflexões, histórias , nos milhares de conversas com criadores, obras, vidas.  Estava a pensar e senti-me antiga.

A funcionária pública, autora deste blog, entrou há 2 meses em Modo Andarilhas estado que se agudizará previsivelmente nos próximos 30 dias.  Entrou em Modo Andarilho e esqueceu-se de avisar. Pede desculpa pelo esquecimento. Assim que puder regressa. Se valer a pena talvez insista em escrever.  Um Abraço Andarilho. Tapaquepelimpim.


domingo, 24 de abril de 2016

O que é POETAR ?

Tenho a casa cheia de visitas  -   destino partilhado por muitas casas nestes dias de OviBeja  – e ainda falta fechar a solta destas Columbinas 2016.
Ontem tivemos uma tarde bonita e serena na biblioteca:a Cláudia Sousa com o seu Andersen e meia dúzia de propostas simples dinamizadas pela prata da casa: aqui a inventar-se  uma cidade, ali a carvoar um auto retrato, além a pastelar um Miró  ou a dançapintar com os pézinhos. Há bibliotecas com sorte. Têm boa prata.
Ando inquieta , tenho insónias (nada como uma insónia para me fazer regressar a este " funcionária pública " tão abandonado ) e decidida a POETAR recusando a ser confundida com a mobília, que, como todos sabem, é o pior que pode acontecer a um funcionário público. POETAR interpelando  um ninho, uma pomba, uma imagem, um texto, usando uma máquina de fazer poesia, lendo muita poesia, falando sobre as palavras e desenhando-as no ar .Percebe-se que este POETAR contrariamente ao que a palavra poderia sugerir de contemplativo, dá um trabalho do cão: aqui "poetando" nas escolas da cidade, ali "poetando" nas freguesias e para fecho, "poetando" no Papa Livros, "poetar" sozinhos ou acompanhados por Vergílio, Mésseder e isto sempre a pensar sobre. (pensar sobre é quase tão inquietante como POETAR)   
Porque "poeto" assim? Porque acredito cada vez mais no trabalho em torno da expressão do poética na vida. Creio na poesia como um instrumento poderoso na relação com o literário e com a essência;: a descoberta do nosso lugar no mundo. Da nossa voz no mundo. Imaginem um mundo onde todos tivesse voz. 
Poetar é entre muitas outras coisas um estado de alma. Uma coisa tão verdadeira e onde se aprende tanto sobre a natureza humana que só isso paga o esforço e  dilui o desalento das ausências de sentido. Quem tem o direito de desalentar quando sabe que o seu trabalho pode apoiar a descoberta dessa voz? Quem pode desalentar quando escuta ou lê, escrito pelos miúdos, coisas fabulosas como esta?

“ Eu nunca acordo sozinho. Estou sempre acompanhado pelos possíveis e impossíveis.”
Juno / Eb1 S.Maior-Beja

“Pode parecer um coisa simples, um ninho, mas sagrado para quem o habita.”
Papa – livros

 “O sagrado é qualquer coisa pequena de imenso valor. Um grão de areia.”
Papa – livros.

 “O que é uma visita?
Alguém que entra para nos surpreender.”
Papa – livros.

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domingo, 24 de maio de 2015

A Bruxa das Festas em tempos de " Leitura Furiosa"


Há famas que ninguém entende e esta da Maria me chamar de “ bruxa das festas”, tem a sua piada. Suponho que saibam o que é uma bruxa das festas? Encontrei num dicionário improvável uma curiosa definição : “ Bruxas das Festas: expressão usada para designar velhas chatas que entram de rompante em qualquer lugar onde se esteja a louvar qualquer coisa - por exemplo uma princesa - e quando todos estão à espera de receber o ámen, entra a bruxa das festas, carrega o sobrolho e ZÁS! Lança uma frase ao vento. Por vezes prenúncios, por vezes avisos. Contam-se casos até de maldições. Partem deixando os salões em desalinho e um sentimento de alívio no peito. Dizem que as bruxas das festas tem boa memória e sabem ler os sinais. As bruxas das festas andam contra a corrente, mesmo que os caminhos sejam solitários. Raras vezes são vistas nos salões mesmo quando são convidadas. Conta-se que podem aparecer de repente e estragar um ambiente dizendo coisas chatas de escutar: quando a princesa tiver quinze anos picará o dedo no fuso e adormecerá para sempre! ( um exemplo entre muitos outros possíveis)

Escolho Maio para acabar o que comecei a escrever há meses, a propósito de um desabafo dito por um funcionário cansado com o facto de, apesar de toda a tecnologia instalada, a organização ser cada vez menos eficiente. (era um funcionário dos antigos da administração local e por isso andava rabugento como as bruxas das festas!). Desabafava o funcionário resistindo à doidice em que convertera o seu serviço, com tanta mexida simultânea sem planeamento adequado, revoltado com as incongruências, daquelas coisas em cadeia, decididas por cima e a ter repercussão em toda a organização, uma onda :
- Tanto email, para cá, tanto email para lá. Tanta coisa com o “está”  na aplicação. Não sei trabalhar com aquilo , porra! Afinal estão dois gajos, sentados um em frente do outro, a ver merdas na aplicação e não conversam porra! Mandam “émails” para “queim” ? !
Suponho que conheçam esta organização e alguns, poucos ou talvez muitos, se reconheçam nesta caricatura. 
O poder local e a administração pública em geral funcionam por ciclos eleitorais de 4 anos, muitas vezes com mudanças de liderança e cor partidária. Ganham-se umas eleições, expressam-se umas vontades, múltiplas determinações: acabar com quintas, trabalhar com todos, reparar injustiças. Anunciam-se linhas, estratégias, marcos, marca. Apostas. e estratégias, projectos centrais. Fala-se para fora e para dentro. E a malta dá-lhes o benefício da dúvida e esperançada continua a dar o litro, mais ou menos certa que, ao fim de dois anos, a máquina começa a estar afinada e as coisas começam a funcionar.

Como sei? Explico: Dois anos é o tempo necessário para uma organização se adaptar à torrente de mudanças que vão acontecer: mudam-se lideranças e logo os estilos, e logo os procedimentos, e logo os circuitos de informação, e logo os círculos de cumplicidades e proximidade com o poder, e logo as parcerias. Aqui e ali surgem os primeiros sinais, as primeiras faltas de respeito, os primeiros acertos de contas, as primeiras injustiças. Anunciam-se novos modelos de gestão, anunciam-se outras formas de trabalhar e a malta a ver que vai dar merda, a dizer que se pode fazer de outra maneira e a não ser escutada. Vamos levando o barco calando aquela vontade doida de dizer: Deixem-nos trabalhar porra! Para quê tanta sede de controle? Percebemos mais desta merda que vocês que acabaram de chegar. Confiem porra! Ninguém quer minar terreno.

Normalmente começamos a conseguir trabalhar com senso a partir do meado do mandato, altura em que desligam o MODO: ACABÁMOS DE CHEGAR!  Suponho que se reconheçam na caricatura e já tenham vivido algures nas vossas vidas de funcionários públicos aquele paradoxo que é ver desarticular o que se entendia funcionar mal mas sem capacidade de pôr a funcionar bem, de inverter rotas, inflectir caminhos e ficar tudo na mesma, às vezes pior. Decisões tantas vezes baseadas em insondáveis mistérios. Talvez alguns se reconheçam no desalento provocado pela sensação de vazio de liderança, de abandono, de confiança. Pela sensação de injustiça e de respeito por uma vida a dar o litro. Não desanimem, as caricaturas provocam este efeito. 

Importa dizer em defesa das lideranças que nas organizações nem todos dão o litro. Há também quem, independentemente de quem lidera, nunca dê o litro ( os espertos das organizações ) -  e também existem os que minam o terreno.

Importa também recordar que no meu círculo de trabalho tenho tido o privilégio de ter dado o litro ao lado de muitos e de não minar terreno a ninguém. Contrariando as práticas das bruxas das festas mais tradicionais – gostava pedir desculpa pela imodéstia ao me integrar neste grupo e a vaidade de o dizer publicamente pedindo desculpa por ser uma "colaboracionista" : nome que acabei de inventar para os funcionários públicos que independentemente da cor de os lidera, fazem o que lhes compete fazer e continuam a trabalhar.

 Mas a verdade meus amigos é que ando farta de trabalhar cada vez com mais ruído e menos informação e menos conhecimento – apesar dos emails e aplicações – sem perceber para quê que se faz, sem perceber porque se faz. Ando cansada de esperar por projetos claros que consubstanciem vagas estratégias e boas intenções e permitam dar sentido a investimentos de monta que todos pagamos. Estou cansada de ver por aí políticos, a tomarem decisões técnicas e técnicos a tomar decisões políticas e estou cansada das pequenas “chicas espertices”, dos acertos de contas, da soberba das máquinas partidárias, dos amiguismos e ismos. Nunca me consegui habituar ao recorrente “ faz e não bufes".

Preocupa-me que não se meça a real capacidade das organizações, que se menospreze as reais capacidades dos sujeitos na organização, que não se definam prioridades, que não se entenda que há equipas esgotadas a trabalhar muito acima de magro salário que auferem. Que se insista em abordagens e discursos falaciosos sem querer perceber que só um trabalho cada vez mais articulado e verdadeiramente participado pode possibilitar maior eficiência e acabar de vez com as quintas, com as prateleiras - sejam elas douradas ou empoeiradas.

 Hoje, dia em que se celebra a “ Leitura Furiosa “ decidi escrever sobre o que me anda a assombrar os dias, as horas e assim dar dimensão pública ao que tenho dito tantas vezes, ao longo de tantos anos, nos locais certos, sempre em primeiro lugar internamente, cumprindo o dever de obediência e lealdade que devo a quem me paga a pão. Faço-o porque lamento que na vida das organizações, apesar de todas as declarações de abertura, articulação e parcerias continuemos a trabalhar sem clareza e muitas vezes sem retorno. Lamento que se assista à perda de espaços, momentos, de coordenação de trabalho, de articulação e planeamento do caminho e sobretudo de reflexão.  Porque me pesam nos ombros os silêncios, as ausências, as irresponsabilidades, o desnorte das decisões, as incoerências, as inflexibilidades e intenções adiadas e depois de dois anos de espera ativa : tenho andado a ocupada a dar o litro – sinto crescer em mim as impaciências dos cinquenta e estou mesmo quase a ligar o “ foda-se” e deixar andar. ( desculpem o vernáculo)

Trabalho na administração local há 27 anos e ainda não me acostumei. Há muito tempo que deixei de necessitar de ter sempre razão ou ser compreendida pelas sucessivas administrações. Cada vez mais o que me move, é estar inteira nas escolhas que faço. Estar inteiro  naquilo que fazemos, naquilo que somos , é sempre uma ESCOLHA.  ESCREVER O QUE PENSAMOS TAMBÉM. Acostumar-me não está na minha natureza de bruxa das festas.
As bruxas das festas têm estas coisas e nem sempre são fáceis de entender. Falam línguas secretas, antigas. Línguas que soam a fado e a premonição. Porque já viveram muito, reconhecem os primeiros sinais de nobreza e desnorte, de força ou de fraqueza, de tolerância ou inflexibilidade. Porque são bruxas farejam ao longe, no ar , os sinais de longínquas caçadas. 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Um Beijo Grande - disse do hospital a tia Sol

 - Este é o Tm da Julia . Um Beijo Grande - disse do hospital a tia Sol na quinta- feira , numa breve mensagem e partiu pela madrugada de domingo. Despedirmo-nos assim da vida é uma surpresa . mas também uma graça. Só mesmo ela, para se despedir assim! de repente.

A tia Sol está presente na minha vida desde  sempre e a sua chegada era sempre celebrada. Naquele tempo a tia Sol tinha um carro divertido e fumava. Lembro-me de ficar presa nos gestos da tia Sol a apanhar o isqueiro, as unhas pintadas, as mãos com anéis a segurar o cigarro, no fumo que saía pela boca escurecida.  
Vivi na casa da Tia Sol em Silves aí pelos 10 anos e mais tarde , asilava umas dormidas no Festival da Paz, no festival da Cerveja, ou para ficar em Portimão à noite. As Casas da Tia Sol sempre foram um mistério. A de Silves, com um corredor que a percorria de lado a lado,  uma saleta onde eu dormi tantas vezes, uma luz que tenho gravada nas retinas, a de Portimão com aquele caos absolutamente organizado, povoado de recantos de memórias. A tia Sol sabia falar grosso ou dar colo. Fazia malhas como uma doida e nunca chorava nos funerais- não sei como ela conseguia, mas começo a compreender.

Foi minha professora. Era tesa e ensinava bem. Tinha um olhar sobre o que deve ser escola e a relação entre professor aluno que a fazem,  ainda hoje pertencer à elite de professores que guardo na memória. Tinha um amor profundo pela minha mãe e partilharam uma vida profissional e pessoal.
Nos últimos anos, quase todos os domingos, chegava com um folar delicioso e um ramo de flores para a minha mãe . Vinha emprestar ouvidos e partilhar dores.vinha conversar. Quando estavam as duas e o meu pai sossegava, sentavam-se falavam de cor, almoçando e aviando uma litrada de tinto da Vidigueira, outras vezes uma "Champanhoca". A tia Sol e a minha mãe sempre foram dois "bons" copos. Nunca lhe perguntei se era feliz, mas acho que sim, apesar das suas silenciosas dores. . O riso e o corpo andavam a dar sinais . Nos últimos meses, eram mais raras as gargalhas inconfundíveis da tia Sol. A vontade de viver expressava-se na forma solidária como se colocava ao serviço das causas em que acreditava. Era mandona! Quando coincidíamos no dia e nos encontrava-mos em Lagos  conversámos: contava dos seus, escutava dos nossos, faziam-se as grandes conversas cúmplices, com ela a lavar a loiça na cozinha- o cigarro acesso no cinzeiro-  e a camisa toda molhada encharcada. Lavar a loiça era uma das funções da tia Sol. Nunca foi visita.
Foi a primeira mulher da casa a mandar um homem da casa levar na bilha! História célebre que se contará sempre que se fala da tia Sol.

Eram célebres as "empenas de crista" que havia entre a tia Sol e o meu pai nos almoços de domingo. O meu pai sempre foi um homem de hábitos . Bons e maus . Sentava-se à mesa depois de o chamarem 400 vezes - o que irritava toda em gente em geral e a tia Sol em particular - e depois de se instalar, ia pedindo de forma avulsa os ingredientes, os objectos que lhe faziam falta. era sempre o mesmo. ao almoço e ao jantar : agora mais um copo, depois  o sal, o limão , agora o galheteiro e um prato para a saladinha , logo depois o picante, a faca que estava manchada, a carne que entretanto esfriou, o copo que tinha uma dedada – e enquanto o pai na cabeceira dizia ou por vezes gritava para a Cozinha : Oh Maria Joséééé! ,!oh Cristinaaa!, Oh Riiiiita! Oh Biiiiia !, Oh Caroliiiiiina! –  a pequenada e o mulherio fazia de cada refeição uma permanente cadeia de montagem ao serviço destes santos hábitos. Aí pelo terceiro pedido ,a tia Sol começava a encher… escutavam-se pequenas picardias,  ao longo da refeição o tom ia aumentando e  quando o meu pai,  depois de mandar aquecer a carne duas vezes, rematava com a useira frase  : -  Está bom p’ra dar ó pórque! ( deve ler-se à algarvia ) – aí … era o fim do mundo!
Aquela frase tinha o dom de acender a veia revolucionária da tia Sol: - Oh ! Eugénio Porra! Francamente… pá! Que conversa de mer… . Então se levantasses o c…. e fosses buscar o que precisas à cozinha ?! Oh Pá ! Pede tudo de um vez pá ! - ficava destemperada e logo ela que falava um tão bom português.
O meu pai provocava : - Oh Sol não te irrites , que ficas feia! - talvez não fossem exatamente estas as palavras , mas a rotina era mais ou menos esta, não havia surpresas!

Até ao dia em que o Fernando ousou imitar o Sogro e teceu um comentário gozão e provocador, ligeiramente depreciativo em relação a um almoço, em relação a "boa" embocadura das senhoras da casa ( leia-se a tia Sol e a Minha Mãe ) , um “ Pudim de espargos “ , não sei precisar:
- Zézinha, na qualidade de teu genro, lamento que tenha vindo a notar alguma perca de diversidade no repasto e até de alguma qualidade no atendimento, onde é que já se viu não colocarem as bebidas no frio . E a falta do salmonetinho? ... Já se comeu melhor nesta casa! . terá sido o final do comentário , imagino ... Não recordo em detalhe a natureza do comentário mas sei que  ele acendeu a veia de revolucionária da tia Sol. Tenho a certeza que escutei a célebre frase :
- Oh Pá ! Fernando, vai levar na bilha! – O Fernando não foi. Mas nunca mais se recompôs!

Este fim de semana não escutámos a gargalhada com o ligeiro ronquinho  a terminar , aquele que fazia quando dobrava o riso , faltaram as flores. mas ficou a história. Esta, pequena, e muitas outras todas as que contamos para chamar ao presente aqueles que tendo partido,  estarão sempre e incondicionalmente presentes nas nossas vidas?  

Um Beijo Grande !

 

domingo, 11 de maio de 2014

Falar de Abril em Maio


“ Ser solidário assim para além da vida /Por dentro da distância percorrida / Fazer de cada perda uma raiz /e improvavelmente ser feliz(…)”

 Existirão muitas maneiras de falar de Abril. Tantas como as palavras que o contam. Eu escolho, por agora, as palavras dos poetas. Ninguém melhor do que os poetas para falar dessa “ (…) madrugada tão esperada, esse dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio e  livres habitamos a substância do tempo”- um poema maior de Sophia de Mello Breyner Andresen que desta forma evocou a maior conquista de Abril: a liberdade.

Ao olhar para a distância percorrida, as nossas primeiras palavras são de celebração e homenagem aos homens e mulheres que antes de Abril estiveram onde era mais difícil estar e lutaram e lutam , com a força das suas convicções, pela construção de um País mais justo e mais livre, mais solidário. Foram muitos os que, de muitos quadrantes, de muitos credos, de muitas ideologias, fizeram a história desta revolução. Uma história contada a muitas mãos , 40 anos de história onde todos nós fomos e somos co-autores. Talvez por isso e cada vez mais Abril seja uma data sem donos.

Não poderia senão trazer-vos as palavras dos poetas para falar de Abril.Sou uma mulher que tem uma convicção profunda na importância das palavras, da leitura e da cultura como um instrumento poderoso na transformação dos sujeitos. Quem não tem palavras para expressar o que pensa, o que sabe , o que diz, está condicionado nas suas escolhas, limitado no exercício dos seus direitos de cidadania. E para muitos, ainda hoje, Abril tarda em cumprir-se, pleno.

Habito uma casa de livros. nela está guardada a História do Mundo e do Pensamento e esta conta-nos como os livros e a liberdade sempre se relacionaram, por isso “(…) os livros se queimam, se censuram em épocas de ditadura – dura de ouvido, dura de cabeça, dura de duração e se promove a educação e a literacia em tempos de dita – livre, tempos de livro-pensadores” ( Maria Teresa Meireles).

Regresso às palavras de José Mário Branco  e a um seu texto de 1979 – tão actual que parece ter sido escrito hoje – um texto que nos desassossega e interpela:

 (…)podes ir para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, Podes estar descansado que estão todos a tratar de ti , tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! (…) Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acha normal haver mãos desempregadas.

Dou voz às palavras do poeta porque temo
que as experiências laboratoriais que são feitas em economias como a nossa, apenas tenham como resultado alimentar um ciclo  infernal  de austeridade de empobrecimento, de controle social, e de perda de autonomia e soberania e que a estas de associe a perda direitos fundamentais: Educação, Saúde, Segurança Social, Cultura – consagrados naquela que é a carta dos direitos de cada cidadão português: a sua constituição.

temo as consequências das repetidas instrumentalizações do estado ao serviço dos grandes interesses privados, às vezes partidários, às vezes até dos pequenos e mesquinhos interesses pessoais.

porque só nas palavras dos poetas encontro o abraço que me abriga do autoritarismo do poder, da inflexibilidade do eu quero, posso e mando, da incapacidade de escutar, de infletir rumos, hipotecando projectos estruturantes importantes para o desenvolvimento dos territórios, para a qualidade de vida das populações.

Trago hoje a esta sala a palavra do poetas, porque nelas mora esse Abril primeiro, inocente e limpo, que nos convoca a resistir e que nos anima a permanentemente a reinventar : Ai, Zé Mário (…) E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partir para ganhar, partir para acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar... Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grândola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia?  

Acho que todos diremos que sim, que valeu a pena, que foi longa a jornada e mais longa ainda a que precisamos empreender para chegar ao lugar onde se joga a possibilidade de nos podermos construir como homens e mulheres inteiros. Obrigada.

Cristina Taquelim/representante do Movimento de cidadãos por Beja com Todos /25 de Abril / 2014.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

quando ele assobiava nos corredores...

  
 Tenho saudades de ouvir aquele assobio do Mestre pelos corredores , alternando , o trautear da música do Chico - ou melhor  o "traulitar" da letra : (...) "Aqui em Beja tão jogando futebol/ uns dias chove, noutros dias bate o sol (...) - com o assobio desafinado. Quase sempre terminava repetindo até á exaustão (..) mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta (...)

 
Nada melhor que um samba para começar o dia , para contar os dias. "(...) Muita careta pra engolir a transação/ Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro/ E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro/  Que a gente tá engolindo cada sapo no caminho/ E a gente vai se amando que, também, sem um carinho/  Ninguém segura esse rojão. " ( Excerto amputado)
 
Sei que não existe nada maior do que o TEMPO... até no amansar da dor. Fica uma saudade do cão das coisas vividas, das cumplicidades, das risadas, das partidas , das bocas foleiras. das manias . DAS CONVERSAS ... e a dor vai passando devagar . Até parece que  ainda foi ontem que estivemos juntos.
Deixo um samba e um Abraço para ele e para os seus ,  
Cá de casa : meu , do Fernando e das crianças.
A Rita aproveita pra também mandar lembranças.
De todo o pessoal .
Adeus.

sábado, 25 de janeiro de 2014

A autora deste blog ENLOUQUECEU !


O Ultimo Imposto
- Aqui tens a pelle ó tyrrano e acabemos com isto .
O osso cá fica para a espadeirada municipal.
Rafael Bordalo Pinheiro
A funcionária pública autora deste blog , vem agradecer  ao governo de Portugal, o empenho em  tirar "a crise do país "- que , como todos sabem se encontra em franca retoma - e mostrar aos altos pensadores da administração,   como se sente reconhecida pelos seus 23 anos de trabalho, de serviço público, expressos no valor do recibo de vencimento do mês de Janeiro.

Sublinhando a natureza estimulante do corte salarial , a funcionária pública autora deste blog, declara-se mais do que nunca empenhada em contribuir para o aumento da produtividade  nacional  e aplaude as soluções praticas - sempre mais do mesmo- que se repetem na administração, sempre postas ao serviço da alta finança.

A funcionária pública e autora deste blog tem esperança que o governo não fique por aqui e anseia que chegue Março para contribuir de novo para o esforço nacional ( ADSE) e servir o estado, descontando mais algum e garante que nas próximas eleições dará o seu voto  a quem tão bem nos governa(ou) e continuará apostar com confiança na alternância democrática: Agora Tu | Agora Eu!

A funcionária pública , autora deste blogue exorta todos os seus pares a mostrar o seu reconhecimento pelas medidas agora tomadas e a enviar ao governo e às troikas que o pariram, vivas felicitações e esta imagem do Grande Bordalo! Ou outra ... a do manguito ...!